O Belo, a Verdade e a obra de Arte

Detalhe ‘Menina do Campo’, de Leonor Botteri

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão devidamente reconhecido somente depois dos seus 60 anos, teve como ponto de partida o pensamento kantiano[1]. Ainda aos 20 anos escreveu a sua considerável obra-prima “O Mundo como Vontade e Representação”, com quatro volumes, no ano de 1818. Para as artes, de maneira geral, e em específico neste estudo, as artes visuais, a estética schopenhaueriana possui preceitos importantes sobre a questão do belo, que esmiuçaremos a seguir, presentes no terceiro livro da obra citada, que se refere à Metafísica do Belo, e faremos também uma analogia com outro filósofo alemão, Martin Heidegger (1889-1976) e seu livro “A Origem da Obra de Arte”, para complementação.

Podemos tomar como ponto de partida o próprio título do primeiro livro citado no parágrafo anterior, para compreender seu pensamento em relação ao mundo. Segundo Schopenhauer, o conhecimento do mundo, sua apreensão, só é percebido através da relação que nós, sujeitos de corpo, objetos intuitivos, temos com o objeto apreendido, intuído. Mas essa relação acontece segundo os princípios da razão (conhecimento intuitivo) – tempo, espaço e causalidade – e de acordo com a nossa Vontade. Ou seja, o que sabemos de um determinado objeto nada mais é do que a impressão que apreendemos dele num determinado contexto a partir das nossas Vontades, um caso isolado. Por Vontade compreendemos “impulso cego, escuro e vigoroso, sem justiça nem sentido”[2], ou seja, não-racional, um mal que domina a consciência objetiva. Assim a Vontade é determinante de todo o conhecimento que possuímos, por conseguinte todo conhecimento é impuro, pois é determinado por Vontades individuais.

Para se conhecer a real essência de um objeto, sua Ideia[3], não podemos manifestar interesses, ou seja, não podemos estabelecer relação com a nossa Vontade, devemos nos esquecer de nós mesmos, mergulhar no objeto, contemplá-lo. Feito isto nos tornamos puros sujeitos do conhecer, deixamos de ser indivíduos e passamos a ser destituídos de Vontade. Esta seria a exceção que Schopenhauer nos aponta como sendo o único momento em que não somos comandados pelas Vontades, quando deixamos de ser indivíduos, de existir, apenas nos configuramos numa única imagem intuitiva em conjunto com o objeto intuído. Esta seria a concepção estética, o conhecimento puro da Ideia e não mais coisa isolada. Agora é a Vontade que está isolada e os princípios da razão não tem influência alguma. Quando isto acontece aí sim temos “o mundo como representação: ocorre a objetivação perfeita da vontade”[4], a Ideia pura e objetiva a partir da Vontade Universal – metafísica – e não individual. Pois sujeito e objeto representam em si mesmos a Vontade quando da contemplação, sendo ambos uma coisa só, não podendo ser vistos separadamente.

A partir dessa exceção, com a qual nos tornamos Vontade Universal, sujeito e objeto, e a Vontade individual não existe, pois toda contemplação é desinteressada, “então é simplesmente o belo que atua sobre nós, despertando o sentimento de beleza”[5].  Assim, o belo pode residir na contemplação, por exemplo, de uma paisagem ou de uma obra de arte, chegando-se ao sublime dinâmico – ameaçador – ou ao sublime matemático – relações de grandeza em que o corpo-objeto do ser intuitivo é reduzido.

Desta forma, retomando o nosso foco de estudos, as artes visuais, nos encontramos em estado de êxtase quando o belo atua sobre nós na contemplação de uma obra de arte, uma pintura por exemplo. Deixamos de ser objeto intuitivo, agindo de acordo com nossa Vontade a partir dos princípios de razão, e passamos a conhecer a pura Ideia, como Vontade Universal, a real essência daquele objeto artístico. Quando isto acontece nos desvinculamos de qualquer interesse subjetivo e questões externas ao objeto intuído e nos mergulhamos por completo, nos entregamos ao puro conhecimento, nos tornando puros sujeitos do conhecer, segundo Schopenhauer.

Heidegger, em “A Origem da Obra de Arte”, posterior a Schopenhauer, também reflete sobre a proveniência da essência da arte. Adentramos num círculo onde o artista é a origem da obra e, a obra a origem do artista e, ambos, são originados na arte, simultaneamente. Estabelece-se uma relação dialética onde um depende do outro. Mas o que é a obra de arte? Para Heidegger, a obra de arte é uma coisa e, ao mesmo tempo, é mais que uma coisa. Cabe aqui descrever seu conceito de coisa: Todo o ente que de todo em todo é designa-se, na linguagem da filosofia, uma coisa[6]. Quase tudo pode ser considerado uma coisa; o homem não é uma coisa. As verdadeiras coisas são as coisas inanimadas da natureza – uma pedra, por exemplo – e do uso. Contudo, quando matéria e forma – da coisa, enquanto determinações do ente, estão sujeitas à fabricação de um produto para ser utilizado, este não é uma mera coisa, mas um apetrecho, o qual ocupa uma posição intermediária, entre a coisa e a obra. Retomando. A obra é uma coisa porque ela tem uma base, é formada por matéria e forma, mas ela remete para algo além de uma mera coisa, das características dos materiais que a compõe, “ela é alegoria”[7]; nos desvela a verdade. O artista, através da obra, cria uma ruptura com a significação corriqueira das coisas, nos revela o ser-apetrecho – essência – do apetrecho, que observando a coisa em si, não somos capazes de perceber; este acontecimento da verdade só chega a nós por meio da obra de arte. Na obra temos mais possibilidades de significação que na realidade. “A essência da arte seria então o pôr-se-em-obra da verdade do ente. Até aqui, a arte tinha a ver com o belo e a beleza, e não com a verdade”.[8] A arte realiza uma ruptura com a pseudo-evidência e, por isso, segundo Heidegger, aproxima-se da filosofia; a criação artística ultrapassa a realidade, é verdadeira e promove o desvelamento.

Para questões de distinção, o que percebemos até aqui é que enquanto Schopenhauer fala das questões inerentes ao belo que possui a Ideia pura, para Heidegger essa Ideia seria o que ele chama de Verdade, a pura essência do ser. Para ele, a verdade só é desvelada pela obra de arte, que abre um mundo de significações. Estamos condenados a um abarrotamento de imagens urbanas estereotipadas, domesticados para perceber a realidade fácil, entregue, superficial. Como disse Carlos Drummond de Andrade, provavelmente um heideggeriano, na “nossa vida de retinas tão fatigadas” estamos condenados a ver sempre a mesma “pedra no meio do caminho” [9]. Assim, é por meio da arte que os apetrechos e as coisas se mostram ao mundo, pondo-se-sem-obra da verdade, no espaço pictural, dando visibilidade ao invisível visível que é olhado e olha. A Arte Metafísica de Georgio de Chirico, inspirada em Schopenhauer, Nietzche e Weininger – os dois últimos deixemos para outros estudos, está aí para afirmar a coisidade das coisas como tal, quando se utiliza de objetos do cotidiano para criar uma composição absurda, na qual o aparecido – coisa-objeto-apetrecho – e seus conceitos não importam, o que importa é o objeto em si – o ser-objeto, aparecendo para o mundo.

Apolo e luva de borracha, de Giorgio de Chirico.

Peço licença agora para me utilizar de uma experiência particular para elucidar a atuação do belo quando me tornei puro sujeito de conhecimento. Ao me deparar com a pintura de Leonor Botteri[10](1916-1998) pela primeira vez, senti algo diferente que não sabia explicar. Esse encontro foi com a obra “A menina” que se encontra no acervo do MUSA – Museu de Arte da UFPR. Passei muito tempo em estado contemplativo. Buscava entender o que continha aquela pintura de tão especial que não conseguia parar de admirá-la. Ela falava comigo; eu não compreendia, mas me sentia presa. Estava encantada, mas era extremamente perturbador aquele silêncio. Eu não mais me sentia, sentia apenas o que “aquela menina” me permitia sentir. Nesse momento eu não era mais objeto intuitivo, mas sim Vontade Universal em relação conjunta com o objeto intuído, Ideia pura, segundo Schopenhauer. Já Heidegger diria que a pintura “A menina”, por ser uma obra de arte, desvelou-me significações de mundo e que só a partir dela pude conhecer a verdade, por isso me pus em tal estado.

A menina, de Leonor Botteri.

As figuras humanas de Botteri, geralmente autorretratos ou retratos de sua filha, quando nos olham nos olhos penetram em nosso pensamento, nos apaixonamos por seus olhares, ora melancólicos, ora nostálgicos ou serenos. Nos sentimos presos, parece que querem nos dizer algo, ou que precisam de nossa ajuda. As pinturas retratam um momento, um instante, nos passando a impressão de fazer parte de uma narrativa, um quadro isolado de uma históriaem quadrinhos. Dessaforma nos entregamos totalmente a Vontade Universal, metafísica, deixando de lado a vontade individual, entrando no estado puramente de contemplação. A pintora como sujeito talvez passasse despercebida aos nossos olhos se tivéssemos conhecido Botteri, mas quando ela se desvela através de seus autorretratos é que podemos compreendê-la em sua verdadeira essência; conhecê-la, senti-la.

Guido Viaro[11], mestre de Leonor Botteri, parece também se desencontrar de si e se destituir de Vontade ao observar as pinturas da aluna:

Sua pintura não é mais pintura; a matéria cor desapareceu por completo, tornou-se funérea. O canto da cor que alegra todos os corações deixou de existir para ela; existe só o pensamento descrito com voz débil, entrecortada por lamúrias onde, de quando em vez, um acento amarelo, destrói o silêncio surdo da revolta do seu mundo interior. [...] Em tudo o que ela produz, existe um reflexo de protesto resignado; afirma e nega, no próprio quadro, uma porção de coisas por demais inteligíveis.

O sublime dinâmico também é observado em seus quadros, pois ainda como nos diz Viaro, suas telas nos trazem algo de ameaçador, de desconhecido que nos é a manifestação do belo de forma enigmática e inquietante:

Existe pureza em suas figuras inumanas, mas são tão distante de nós, tão abstratas para nosso mundo, que a pessoa sente calafrio até o coração. Sua pintura é um contínuo pesadelo, é uma espécie de chamada a juízo da criatura humana por pecado cometido ou a cometer, frente a um tribunal supremo. É torturante para quem examina estas confissões e mais ainda para quem a pintou.

Após esta breve análise das questões que merecem maior atenção em relação à apreciação estética/artística com foco nos dois filósofos alemães pós-kant, Schopenhauer e Heidegger, e a analogia com a pintora paranaense Botteri, podemos considerar o quão a filosofia, no caso a estética, pode nos auxiliar na compreensão do inexplicável que nos é revelado através da obra de arte, elevando as artes a um status frequentemente desmerecido frente às ciências mais sistemáticas e exatas, mas que não conseguem abranger o conhecimento sem os princípios de razão e destituídos de Vontade, conhecendo portanto apenas o conhecimento impuro, não a Vontade Universal, a Ideia, a verdade.

 


REFERÊNCIAS

[1] Immanuel Kant, filósofo alemão (1724-1804).

[2] Arthur Schopenhauer.

[3] Aqui relembramos o conceito de Ideia, segundo Platão, como fôrma do qual sairiam todas as coisas-objetos do mundo, as cópias. Assim, o mundo das Ideias seria o local onde a real essência dos objetos estariam, as formas primordiais.

[4] Arthur Schopenhauer.

[5] Arthur Schopenhauer.

[6] HEIDEGGER, Martin.  A Origem da Obra de Arte.  Rio de Janeiro: Edições 70.  Pg 14.

[7] HEIDEGGER, Martin.  A Origem da Obra de Arte.  Rio de Janeiro: Edições 70.  Pg 13.

[8] HEIDEGGER, Martin.  A Origem da Obra de Arte.  Rio de Janeiro: Edições 70.  Pg. 27.

[9] Alusão ao poema No meio do caminho, de Carlos Drummond de Andrade. Publicado na Revista de Antropofagia (1928), e incluído em Alguma poesia (1930)

[10] Pintora moderna paranaense.

[11] VIARO, Guido. Disponível em: http://museuguidoviaro.org/index.php?option=com_content&view=article&id=48&Itemid=76. Acessado em 22 de abr. 2010

8 comments for “O Belo, a Verdade e a obra de Arte

  1. 1 de julho de 2011 at 16:08

    Neste estado de coisificação dos objetos em meio ao seu estado natural até desnaturalizá-lo desejo muitas proliferações daquilo que se manifesta como desejo, sucesso na comunicação e “reConhecimento”!

  2. 1 de julho de 2011 at 16:11

    Desejo mútuo Mattos! Que mais e mais coisas se desvelem…

  3. Iques Santos
    3 de julho de 2011 at 13:12

    o conceito é muito bom…
    mas, eu não consegui perceber com muita facilidade o logo do site.
    aos responsáveis do mesmo, seria melhor facilitar o conceito?
    abraço.

  4. 3 de julho de 2011 at 14:15

    Olá Ique, obrigada pelo comentário. Mas o intuito da logo é exatamente este, fazer uma brincadeira visual que não fique entregue de imediato. Valeu.

  5. Maria Morena
    1 de março de 2013 at 14:48

    :) Excellent

  6. Marcio
    30 de maio de 2013 at 18:55

    Muito bom…!
    Creio que irá me ajudar com o meu TCC…

  7. 24 de janeiro de 2014 at 12:43

    Sinto essa mesma percepção Schopenhaueriana, quando contemplo as obras de Zdzisław Beksiński.
    Ótimo texto, fico engrandecido quando leio textos assim.
    Abraços.

  8. Gheysa Marques
    24 de janeiro de 2014 at 13:01

    Obrigada pelos comentários Maria, Márcio e Fernando! Dá até vontade de voltar a escrever…

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